terça-feira, dezembro 06, 2016

A vida é o horizonte. Aquém do horizonte é o local, a matéria, o concreto, rígidos, inflexíveis. Nada se pode fazer em relação ao concreto a não ser passar, não há maleabilidade no aqui, só passagem. Apenas fitando o horizonte, e porque o olhar é uma projecção (ou o seu princípio, em rigor), apenas assim damos um passo em frente, um que o seja realmente, mais do que um banal fazer avançar o pé. Só assim presenciamos algo mais, e só assim existimos, em vez de estarmos. Em nome da Lua, que preside ao sonho, haja horizonte!

domingo, dezembro 04, 2016

Inspiração

Erguem-se seres em apoteose,
gigantes, gárgulas, dragões,
dançando pelos ares em turbilhões,
criaturas míticas em simbiose.

Preenchem o mundo de emoção
os unicórnios, os elfos, os tritões
e os vampiros que saem dos caixões.
Espalham temores e admiração.

A adrenalina é aquela divindade
que faz abrir a fenda fantástica
por onde irrompem como arte mágica
mil ideias tornadas realidade.

É o sopro que faz o vendaval
e a chama que nele a alma aquece,
pois até as sensações que a ideia tece
vestem o coração co'o seu astral.

Todo este mundo é a energia dela.
Não é que espaço a imaginação
onde deposita a sua criação,
e o poema é apenas uma janela.

terça-feira, novembro 01, 2016

É mais um dia que passa,
menos um dia que resta
de uma rotina sem festa
de uma vida que é sem graça.

Segue-se um dia sem rumo
p'las ruas do alheamento.
Cada momento de alento
cedo arde e é só fumo.

Este inferno que contemplo
no lar vazio é um templo
à vanidade e ao nada.

Que haja ao menos Satanás,
perdure a chama que traz,
quente a alma condenada.

sábado, março 26, 2016

Os espaços são lugares cativos
das paredes das quais se é refém.
As pessoas, só fragmentos vivos
do facto que é não serem ninguém.

Os sonhos, o momentâneo oblívio
do p'sadelo que é a realidade,
e os amores um impulso pífio
de ignorar do afecto a vanidade.

E o poema não passa de a razão
constatar que por tudo ser fútil
do desespero também a expressão,

suspensa em vácuo, sem direcção,
tem o mesmo tanto de inútil
que a passagem do tempo, erosão.

quarta-feira, março 16, 2016

Pela catedral da alma passa o dia
como folhas de Outono caem mortas,
cada folha de pensar é só as portas
sob a abóbada de ela 'star vazia.

Entram quer noite quer vento p'los vitrais
que à luz da vela são só vidros partidos,
o movimento, a chama, sonhos varridos
p'lo ocaso que há a cada passo mais.

Queda, a espera no encosto do pilar
que sustenta o nada que há ante o altar
de memória pelo caruncho carcomida

é saber que ele é falta de esperançar
por saber que resta pelo sono aguardar,
que ela mesma por ele é absorvida.

segunda-feira, fevereiro 29, 2016

As cinzas do palácio refulgem,
os padrões dos clãs ardem às cores,
tropas caem ao som dos tambores,
das civilizações a penugem.

Textos e quadros o vento varre
como a História cai no 'squecimento,
hoje é d'ontem o apagamento,
abismo sem nada que o agarre.

Amor, ódio, licores, absintos,
guerra ou paz, fenómenos extintos
quais do sol brilhante o eterno eclipse.

Piedade é só mais um termo vão,
humanidade outra ex-criação,
que eterno é só o apocalipse.

Nas trevas da cidade bailam chamas.
O ar é rarefeito e sulfuroso,
o asfalto liquefeito é pegajoso,
e os monumentos tombam pelas lamas.

Progride a custoso arfar e passo
por corpos que jazem carbonizados,
p'la queimadura seus músc'los sulcados,
coberto de cinza, envergando aço,

um guerreiro de olhar irredutível,
enfrentando a cada esquina a insídia
dos demónios que conjurou a perfídia
de Xaltotun, feiticeiro terrível.

Assobia a sua espada inexorável
quando entre as garras seus golpes desfere.
Nem a sua marca quente e funda fere
o seu espírito de fera indomável.

Do seu rasto a crónica é escrita a sangue
de vampiros e ogres sem cabeça
e dela consta somente a promessa
de derrotar Set, Quod Magna Angue,

fonte dos negros poderes ocultos
com que o Mago horror e caos espalhou
e Senhor da Terra se proclamou
dizimando da resistência os vultos.

Tão só a espada de Conan se ergue,
sem preces, que ela em si é a verdade,
rumo ao castelo maldito de jade
e aos sortilégios mil que ele albergue.

Sua lâmina milenar abrirá
o trilho de sangue, suor, e certeza
que sob ela e sob de Crom a grandeza
o crânio de Xaltotun rolará.

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

O sentimento é a maré negra
que assalta e assola o continente.
Furiosa irrompe indiferente
e colhe vidas sem ter regra.

Das casas de ontem faz destroços
e arrasta entregando-os aos ventos
os confortos ante os tormentos,
sem direcção ou sequer 'sboços.

Neste cenário devastado
derivam almas sem 'sperança.
O movimento inútil cansa.

Os furacões em turbilhão
engolem a população
do planeta enfim inundado.

quarta-feira, fevereiro 17, 2016

O tempo é uma catedral antiga
perdida na imensa floresta
e a lua ilumina p'la fresta
o interior que apenas castiga.

O espaço vazio, suas guaridas,
detalhes da sua arquitectura,
e cores da sua pintura,
memórias p'la noite varridas.

O pêndulo é o som do seu culto,
única e monótona prece
cujo eco apenas adormece
dos sonhos perdidos o vulto.

No sono, a dureza do chão
ou o espírito seco e os vinhos
é a rosa da vida ser 'spinhos
e a carne decomposição.

Suas torres escuras e sós,
solenes ante o frio da aragem,
são um poema vão sem mensagem
erigido p'la torpe voz.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

I - Vila

Sobre o típico mosaico da calçada
da praça que ladeia o velho palácio
há famílias e turistas no prefácio
de um dia ameno sob do sol a alçada.

Dela partem ruelas de igual populadas
entre lojas de artesãos e doçarias
e casas rústicas e cães e alegrias
nos convívios saciados nas 'splanadas.

Calcorreio sem destino nem pertença
este cenário onde divago sem crença
quando por ele passa um distante vento

que traz consigo um silêncio clamoroso
ao invés do burburinho langoroso.
Soergo a face e avisto o chamamento.

II - Serra

Os enormes montes verdes, imponentes,
visão essa que a estrada estreita galga
como do mar banhada a pele se salga
são carvalhos e salgueiros à alma rentes.

Poucas quintas e vivendas os pontilham
da ideia de civilização pequena
que até perante o esplendor alto da Pena
se perde ao se diluir em bosques que brilham.

Como o sol no horizonte vermelho fica
o ímpeto da pesquisa se intensifica
e os passos em busca do significado

mergulham entre as árvores e os penedos
sobrepondo-se aos cansaços e aos medos
num ingresso pela lua enfeitiçado.

III - Floresta

Lugar que não é lugar, sem coordenada,
cartesiano enigma encoberto por copas
que vestem lógica de pesadas roupas
tapando a solução na mente apenumbrada.

Côr que não é côr, vegetação cerrada,
sugestão de verde que em bruma desbota
tal como o aroma da flora que brota
se dissipa n'alma p'la treva aventada.

O calor da estação e o frio da geada
não contrastam distintos pois esmorece
a noção de temperatura que se esquece
como ante a noite escura a alvorada.

Ao dar-se o abandono geral dos sentidos
dá-se sábio o abandono pelas fissuras
sob o piar das corujas lá nas alturas
das certezas, das dúvidas, ou dos ruídos.

Quer razão quer emoção são engolidos
pelo denso breu que a mata em si encerra,
sem paz nem agitação, apenas serra
onde todos os estados são sorvidos.

A própria presença faz-se factos idos
na distante ausência até de estar ausente
neste momento eterno que pára a mente
e dispersa do tempo os grãos esvaídos.

Entre o estar e o existir, a fenda aberta
e o vazio que emana da sua ampla rotura
revelam-se então saída da clausura,
do que está por compreender a descoberta.

E afinal toda esta anulação que aperta
é uma soma de sítios, um vasto espaço,
o negro arvoredo o mais garrido abraço,
e o nada a maior, mais generosa oferta.

O mistério que é nosso, dele coberta,
reaviva a floresta só dando a resposta
ao deixar de do todo ser parte posta -
sendo um com ela, indivisível, se acerta.

IV - Natureza

A paisagem é de um corpo os contornos,
as elevações seus seios bem assentes,
a flora sua pele e tez resplandescentes,
e a beleza de tudo isto seus adornos.

Toda a fauna e a gente que nela habita
são seus filhos do qual ela é protectora,
que é das vidas de que ela é progenitora
que o seu coração é composto e palpita.

A neblina que a envolve é o carácter
complexo e precioso e de ser alma mater,
e as nascentes que irrigam são o querer

e o seu fluir puro os desejos sem ralo
de se entregar toda ao mar e seu embalo.
Natureza que é plena, mãe, e mulher.

domingo, fevereiro 07, 2016

Trilhando a fuga irregular
como do terreno o relevo
adensa a ramada sem trevo
o azar - não abrigar lugar.

No desfreio da projecção
de além dôr bem que sem angra
ignorar a pele que sangra
da pancada e do arranhão

os passos em si se emaranham
na antecipação da pegada
que é não haver enseada
mas feras que por trás se assanham

até ao tropeço maior
de cair noção de caminho
p'la ravina em redemoinho
num desnorte ainda pior.

De da colina as alturas
envoltas distantes em névoa
a queda é total da pessoa
em pânico até às funduras

onde o solo jaz pantanoso
e engolfa o peso dorido
de um corpo de alma caído
no seu oblívio ruinoso

no qual o esbracejo esmorece
torneado p'lo lôdo que sobe
borbulhando a ameaça improbe
de engolir a forma sem prece.

Sob ele a visão turva cega.
Vislumbra tão só a anaconda
e na sua barriga redonda
sucumbe ao desfado da pega.